sábado, 31 de julho de 2010

O POETA E A POESIA


Fui exposto
Ao teu sofrer...
Às tuas mãos a escrever...

Com olhos cerrados
Davas a existência às palavras...

Eu não via o que miravas
E tua mensagem, não compreendia ...

Porém sentia
A dor de tuas mãos
A escrever
Sem pausa...
Sem descanso ...
Sem perdão por si mesmo...

Escrevias com os olhos cerrados
E somente as palavras
Sabiam o que tu miravas...
Só elas
Choravam tua melancolia
Teu desespero
Teu movimento incessante

Eras a própria dor a escrever
O próprio amor a sofrer...

E, agora, sem perceber, sou eu
O teu amor
E tua dor...

Composto
Exposto
Escrito
Sou teu Poema
Vivo !
Sou o cerne de todo o existir
Sobre o papel
E sob minha pele

domingo, 18 de julho de 2010

ESSE MAR QUE ME BANHA






Esse mar
Que me banha e me salga
Não é mais só o meu...

Vem de longe...
Trazendo talvez uma lágrima
Um sorriso... um poema...
Vidas e segredos de alguma outra praia.

Vem me banhar
Da solidão despovoada das ilhas
Da angústia das almas náufragas na vida
Da mágoa da ostra por sua pérola ferida...




Vem de longe
De um passado anterior a mim
Vem me banhar
Da memória molhada do Tempo




Vem me trazendo a vida
Em suas ondas como quanta
Buscando meu toque, meu olhar,
Para a outras praias também me levar.




Essa história imensa me abarca
Um infinito clama por minha alma
E meu sonho se desfaz em grão de areia...

(IMAGENS GOOGLE)

sábado, 17 de julho de 2010

A CRIANÇA E O CASULO



Não chores, minha criança,
Pelo mar que desmancha
Teus passos pela praia...
Não adianta querer demarcar
Os contornos rígidos das caminhadas.
A vida não se trilha com um mapa:
Nela, a Verdade voa
Com asas metamorfoseadas...


Todos os percursos que trilhamos
Acumulam areias revoltas
No corpo íntimo do Tempo.
Todos os percursos
Nos conduzem,
Indistintamente,
Ao encontro dos nossos vesperais...
Quando as realidades nítidas
Se diluem
Na centelha única
Dos crepúsculos.


Um dia, ao olhar para trás,
Ao fim de tua jornada, verás
Que de nós não sobra quase nada:

Como anjos,
Saímos crianças
Da neblina arrastada do nosso despertar:
Como vultos da manhã ... nascemos...
Perseguindo o Sol
Que nos transforma
Pouco a pouco
Em idades.


Um dia,
Como homens,
Entramos na noite
Que, de mãos dadas com o alvorecer,
Nos aguarda
Para novamente
Qual anjos
Nos receber.


A vida é um simples sonho da Inexistência...
Os dias são simples mutações da consciência...
Em nada vencem a eternidade que nos precede
E nem a outra que nos sucede...


Por isso, não chores, minha crinça...
Tuas lágrimas tecem tranças em torno de ti,
Tirando-te a leveza de asas
Em teus voos pelas idades...
O mundo por onde pisas
É apenas a dor do corpo
Fechando-te no casulo
E preparando-te para a vida.


quarta-feira, 14 de julho de 2010

TELA DE ARAME

TELA DE ARAME





Da janela do meu quarto
Vendo a chuva deslizar
Pelas cercas do quintal,
Encantei-me com as gotas
Que presas ao arame
Desciam devagar
No zig-zag do traçado.
Fiquei a pensar que algumas pessoas,
Como pingos mais intensos,
Se projetam logo aos seus destinos,
Enquanto outras batalham tanto,
Indo e vindo pelas telas dos seus dias.


Reparei que as gotas em queda certeira
Se perdem sem nitidez...
Como um véu, desaparecem...
Sem paisagem e nem vontade.


Já as outras, bem mais raras,
Traçam luzes prateadas
Nas cercas que antes pareciam apenas
Marcar limites da liberdade.


Então fechei a janela descansada,
Feliz por não ser dessa multidão tão apressada,
Pois, ao invés de ir correndo ao fim dos rumos
O que eu quero de verdade
É encantar-me com as dificuldades
Que me prendem junto às grades
Que, às vezes, margeiam a felicidade.


AS FLORES DA SAUDADE











Em miúdos toque...
Em suave aproximação...
Pequeninas gotas repousam silenciosas
Em minha janela.
Tímidas, fazem-me convites
E provocam despertares inconscientes.

Chove bonito...
Chove em paz...
Lá fora, um brilho de verniz
Emana da paisagem.
A catedral, o rio,
Os casarões adormecidos,
Os morros floridos por árvores roxas...
Tudo
Resplandece.
As flores da Quaresma
E até mesmo os telhados velhos
Cintilam úmidos
Revestidos de súbita mocidade.


Os sentimentos, as cores, a natureza, as flores,
Às vezes, se combinam.
Há flores que não comportam o peso das gotas,
Vencidas...
Trêmulas...
Deixam escorrer por suas pontas
Suas muitas águas acumuladas.

As flores têm cor de saudade...
A chuva tem luz de novas idades,
E os meus olhos, comovidos,
Se desmancham diante dessa fragilidade.

Não sei se chove a chuva
Ou se chove eu mesma.
Há sentimentos que chegam também de mansinho.
Chegam bonitos...
Chegam em paz...

Consola-me saber
Que assim como as flores
Despencam chovidas da Quaresma ,
A Saudade que hoje choramos
Também se vai,
Aos poucos, desmanchando-se pelos dias.
E os amores, os remorsos, o abandono
Sutilmentese despreendem das dores
E cedem passagem
A outras primaveras.













Pela manhã,
O sino da igreja
Anuncia um novo dia
E as pessoas
Caminham à margem do rio,
Pisoteando, sem perceber, as pétalas roxas



Esquecidas pelas ruas de suas vidas.
( A P.R.T, in memorium, eterno anjo sobre a minha poesia)
Primeiro poema meu a ser premiado em concursos e publicado em três antologias.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

ALÉM DO HORIZONTE


Ela quis ir à lagoa...
Pisar areia
Ver os barcos
numa manhã clara
de sol, árvores e sombras...


E ali sentada
contemplando a paisagem
não sei bem que pensamentos lhe ocorriam
nem em que devaneios partia
e recuei com respeito
para não ofender sua paz.



Era um quadro delicado
Na areia branca, na água mansa, nos barcos ancorados
e até mesmo nela
tudo era mágico
etéreo
harmônico
suave...



Assim passaram-se horas
de um contemplar calado
que eu nunca soube explicar...


De súbito, como uma palavra que aprende a ser falada,
Ela se ergueu,
soltou as cordas de um barco
como quem desfaz um mero laço.
Despreendidamente, ele flutuou,
lentamente,
rumo ao canal
ao encontro do mar.



Na areia branca, a moça de branco
via a vela branca se afastar...
entre o infinito azul do mar
entre o infinito azul do ar
seguindo horizontes
e algum segredo indescritível...


Eu a vi em um disfarce
lavar sua lágrima
nas águas salgadas da lagoa
como quem oferece à distância
um fragmento perdido
ou um elo indivisível...



E então minha alma voltou sorrindo para mim
tão plena, tão lírica
sem mais nada falar
e sem nunca mais, lá, voltar,
feliz por deixar seu verso
navegar livre e tranquilo
nas águas profundas da inspiração...



( Meu coração nunca abadonou aquela menina. E enquanto eu durmo profundamente em noites enluaradas, os pescadores dizem ouvir uma menina a chorar quando as águas da lagoa inundam o mar)