quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O QUE RESTOU DE PURO DO MUNDO


O QUE RESTOU DE PURO NO MUNDO

 

Diariamente ele saía

Surgia como inspiração

Ou ilusão:

Vestido de cores vibrantes

Vestido do vermelho e do branco.

 

Importava-lhe, sim, as cores

De uma, a vibração, a energia, a vida e a veemência

Porém, era do branco que lhe revestia as mãos que ele mais se dignificava...

A brancura absoluta das luvas, a brancura absoluta de espaços

Cobrindo a palidez insuflada sob a pele.

 

O branco, pensava, não se pode sujar,

E a palidez, bem, as luvas escondem...

 

Aqueles dias eram feitos de Tempo:

Havia gritos eufóricos, sorrisos, alegrias, gestos de crianças...

“ Mãe, lá está o papai Noel!”

E ele , logo, perguntava:

“O que você deseja , meu filho?”

“ Um i-pod”

Ele ria : modernidade indecifrável, pensava.

E olhava nos olhos das mães

Palidamente,

Indagando se poderia confirmar aos pequeninos

O recebimento do ‘ carinho’...

 

Papai Noel tem momentos assim

Em que não sabe o que responder a uma criança...

Mas suas mãos são tão puras, tão brancas,

Capazes de conceder espaço a tanta ternura

Que manchas de sujeira nos dedos das luvas

Justificam horas a esfregar, lavar, ensaboar, escovar...

 

Garantiu-se ao velhinho um mês integral de trabalho digno

Uma bênção humana a um velho desempregado

Uma bênção crística de voltar a estar e ser entre  crianças

 

 Mas na noite de Natal

O shopping não abre

Papai Noel pode voltar para casa de vez:

Desemprego,

Velhice,

Solidão

Abandono de cadeiras vazias e ceia, enfim farta, pelo fruto trabalhado.

 

A palidez de tudo que finda treme pelas mãos

Suja-lhe  de ausência a  veemência da vida.

Última noite

Resta a lembrança de seus olhos indagando às mães

O recebimento de carinho:

 

O menino recém nascido,  ainda na brancura do céu,

Também deve ter momentos assim

Em que olha  olhos pálidos e idosos

E não sabe o que responder a Papai Noel...

 

 

(Ao pisarmos neste mundo, só encontramos pureza. Nós mesmos somos fruto dessa absoluta pureza. E só estaremos vivos, se o sorriso de uma criança nos embarcar em eterna viagem.)

 

 

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