terça-feira, 31 de janeiro de 2012

RESPONDA SE PUDER

Responda se puder







Imagine uma construção toda amarrada,
Se não pelos ferros...
Por paredes e vigas pesadas...
Ou seria pelo concreto do cimento?

Imagine-se quebrando esta prisão,
Buscando aleatoriamente maior amplidão de salas e espaços,
Como se, matéria ou argamassa tivesse energia capaz de dispensar
Todo o conhecimento do limite que a faz desintegrar.

Toda mudança na vida deveria ser premeditada,
E com liberdade seria, ir além das conformidades do fazer leis tolas
Para que pudessem ser transpostas frente à natureza.
E todas as coisas poderiam livremente mudar de lugar, sendo livres.

Ter a liberdade para voltar sozinho para casa...
Para caminhar contra o vento, sem lenço e sem documento...
Por tocar o corpo, desprezando o conhecimento,
De que um desejo imenso sempre leva o amor à queda!

Liberdade...? Se indagar saberá que trata-se de algo amplo na vida,
Que não pode ser suplantado no conceito de imensidão.
Pois, liga-se a autonomia, possibilitando ao espírito de espraiar.
E mesmo que se mude o ângulo e o indagar, haverá o mesmo sentido!

Não é autonomia do conhecimento!
Não é ultrapassagem do espírito pela condição!
Não é pensar diferente do companheiro amigo...
Liberdade é mais que um sonho no chão!



De Magela e Carmem Teresa Elias

(o que é liberdade?)

POEIRA



O que seria um absurdo agora...

Poeira indo para o mar?
Aquele estranho corpo...
Num absurdo que a tentação pode alcançar!


Poeira a invadir meu espaço
Poeira deixando meu coração opaco
Poeira que rapidamente se move
Poeira que assustada da tragédia também foge!




A queda do pássaro que voa longe ao léu
O tempo que não rima e simultaneamente voa
Se não sabe nadar, por que ir ao mar?
Tentação! Poeira que aranha o céu.


Numa fase da vida eu tinha sonhos
Sonhos que despertavam sentimentos dos escombros
Sonhava que poderia subir e talvez voar...
Tudo virou poeira e foi pro mar.




De magela e Carmem Teresa Elias

(Imagem google: transeuntes correndo assustados enquanto os edifícios desabavam na rua Treze de Maio)

Concordia, Fortuna, tudo poderia começar apenas por um nome...

Poderia apenas começar pelo nome...


Mas Fortuna representava o primeiro grande navio, trazendo a temporada dos grandes transatlânticos. Pensar em fortuna tem outras inquietações e não se referia à riqueza, como muitos pensavam. Significava “Destino". Incluem-se assim, as relações de causa e de efeitos que possuem a Roda da Fortuna. Numa versão simplista: O destino da sorte!

O verso inicial de Carmina Burana na mente faz a associação: ”Oh! Fortuna, Imperatriz do Mundo! Aquela imensa e branca nave chegou há alguns anos. O cisne mágico e encantado que apontava para os rumos de um Shangrilá prometido e que, depois de vê-lo flutuar, num vai e vem de dois anos,fez com que, fascinada, a Imperatriz Beatriz, declarasse: Como fazer para viajar?

Planejar, poupar, descontrolar... Após algumas temporadas o destino nos fez embarcar. Mas, Fortuna já não viria mais a Costa brasileira, em seu lugar, um navio maior chegara: o Concórdia.

Tubarões, monstros marítimos, sereias gigantes para nos engolir, segundo minha mãe e, de comum acordo não a isso que fomos. Fomos comemorar as bodas de ouro especialmente a bordo. Embarcamos no mundo real dos sonhos. Tudo lá era magnificamente arrebatador, fazendo com que fantasias mirabolantes fossem subjugadas pelas explosões de cores e contrastes. A novidade nas formas das coisas, as surpresas no olhar, a exuberância que só haveria no requinte. Uma representação direta da Europa se fazia construir pelo navio cujos decks e salões restaurantes eram nomeados e tipificados nas cidades europeias. E a parte central do Concordia chama-se Atrium Europa. Um olhar de relevância para os elevadores panorâmicos em verde esmeralda que ascendiam e desciam doze andares, e por superstição, negavam o treze. E, para os lustres em forma de tentáculos de polvo, elaborados em vidro e cristal, que além do deslumbre continuamente mudavam de cor, passeando entre o verde das folhas de oliva, o vermelho dos pimentões, o amarelo do sol da tarde e o azul firme do mar. Lindos salões, como o do piano bar Budapeste, o salão de baile Viena que nem a Cinderela ousaria imaginar. Além dos muitos tons do verde, foi neste cenário a primeira noite de gala, luxo, cuidados com a maquiagem, beleza, alegria, baile e aquele jantar festivo dos brindes, fotografias e da perfeição. Dez dias inesquecíveis em alto mar, os quais ficaram marcados pelos mais profundos sentimento de concórdia. (não raro se pensava quem em alto mar, o resto do mundo era terra imaginada. Sonho distante... e de qualquer modo, se podia pensar que na vida devia existir algo que pudesse ser perfeito). Um privilégio do mar...

Aquela foi a ultima vez que o vi sorrir lá no fundo da alma. Pouco tempo depois meu pai se foi. Agora a nave se foi... Outras vidas se foram em meio a festa de uma Europa frágil na cor do verde esmeralda...

Hoje comparo as fotos dos grandes salões vazios: tão cheios de beleza ,mas sem vida. Falta algo naqueles salões! Faltam as almas, corações, abraços, sorrisos, suores, o medo de tropeçar e derrubar uma taça. Faltam os olhares. A beleza é inútil se estiver vazia de gente. Não existe concórdia nas coisas solitárias e vazias de tudo!

Poderia apenas entender o nome...

Concórdia é o mesmo nome da mais famosa Praça de Paris que foi projetada para representar a força, a justiça, a prudência, a paz e a liberdade, apesar de ter vivido o contrário.

A Roda da Fortuna não para nunca, na parábola da própria vida humana, cuja força devastadora se expressa na Opera de Carl Orff e não nos deixa esquecer que, a natureza, a beleza, a exuberância, os festejos e tudo mais, estão sujeitos as alternâncias do destino da sorte e do azar, da responsabilidade sobre o resultado, do encantamento que tem a poesia, o sonho que obedecem os ciclos que vem pelo vai e vem dos mares.

Talvez quando ler esta prosa possa lembrar-se de como fomos felizes. Alguém poderá dizer que foi só mais uma nave que afundou, mas os sentimentos bons ficam conosco, não é pai?









De Carmem Teresa Elias e De Magela


( imagens : Atrium Europa e capela do Costa Concordia)

ABSURDO


Absurdo andar na praia e não achar.

Beber cerveja quente...
Ter a cabeça quente,
Nadar no meio do mar.


Absurdo ir ao motel e ser sentimental
Ficar pelado para assistir televisão
Comemorar o casamento
Acabar vendo jornal.


Absurdo agora é o preço do comercial
Frango velho, peixe esquisito
Não como bisteca e nem gosto de cabrito
Para embarcar no seu mundo real.


Absurdo acender todas as luzes
Esperando você chegar: sinalizar...
E te ver passando...
Onde todo carioca tem de passar.


De Magela e Carmem Teresa Elias
 
(Imagem; Rua Treze de Maio, onde o edifício Liberdade desabou juntamente com mais dois, no coração do Rio de Janeio)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O AMOR E A ENTREGA




De que servem os meus versos
Se não para entender
O amor e a entrega?


De que serve o que eu te digo
Se o avesso de minha voz
É o que embarga o teu grito?


Um silêncio nos une
Do outro lado de qualquer palavra
Quando não se entende
O que até a beleza unânime explica:


Como uma rosa diante da lua
O efêmero e o permanente caminham
Lado a lado como em um beijo


É que à noite, a agonia torna-se branca...
No corpo de mulher, é entrega
No coração do homem, é amor


Ao avesso, a beleza ilumina sua própria dor,
Efêmera ou constante
Como o medo ao espinho , ou o céu a um delírio .


Mas de que serve o que te digo ?
Se a palavra nos une e, ao avesso da noite,
Seus olhos me cobiçam e seus lábios me beijam!


Para entender a entrega e o amor
Tu me trazes rosas efêmeras em noites de luar
E eu componho versos, permanentes e brancos.


Ao avesso, essa dor caminha unânime,
Lado a lado ao silêncio e ao grito
Que embargam qualquer palavra que eu te digo.

domingo, 15 de janeiro de 2012

CONCORDIA

CONCORDIA





A gaivota imensa
Pousou no Concordia.
E a embarcação preguiçosa
Nem sequer reclamou.


Permaneceu calada
Acenando a ruína em bandeira estrangeira...
Com a mesma sabedoria dos monumentos antigos.


E a ave estranha,
Que não se sabe de onde vem,
Povoa o navio molhado
E grita para o silencio.


Mas o navio não responde.
O navio não tem fome.
Ele é só tormento
Para o movimento interrompido das ondas.


E do alto
A ave se banha
Com os restos
Dos estouros das ondas


No mar dorme o Concordia
_ o descanso para os pássaros,
O repouso para as almas náufragas_


Dele, em breve, voará a gaivota
Gritando para o silencio.
... Voará no mesmo  Naufrágio e Sonho
De uma Concórdia  possível entre os homens.



                 ( foto do atrium Europa no Costa Concordia em noite de gala )
 
 
    Às vítimas, aos sobreviventes, à embarcação Costa Concordia.

NAU PERDIDA ( COSTA CONCORDIA)

Nau Perdida






 Até o Mar,
Às vezes,
Perde...


Perde o percurso
Das naus.


Perde ante os rochedos incertos
E faróis apagados

É que até ao Mar
Um navio deixa saudade!!!




E na escuridão, o mar é só receios...
Naufragada barca da própria solidão e anseios...

Desconhece o mar os passos
Por onde aporto
Sobre as terras, desertos ou submersas ilhas.




Um mar, sem paixão
E sem recordação,
É mar vazio...

Mar só de receios,
Sem navios, Mar Sozinho,
Um mar de adeus...


    A todas as vítimas do Costa Concordia, passageiros, e à própria nau, vítima de seu infortunio.